OBRA ILUSTRATICA - Diana Adormecida / Pietro Maria Bardi.
O CRIATIVO NEM SEMPRE É ARTE
Pietro Maria Bardi nasceu em Spezia em 21 de fevereiro de 1900 e faleceu em São Paulo em 10 de outubro de 1999. Foi jornalista, historiador, crítico de arte, colecionador, expositor e marchand. Junto com Assis Chatheaubriand, foi idealizador e realizador do Museu de Arte de São Paulo que dirigiu por muitos anos.
No artigo abaixo êle é enfático ao afirmar que "um soco pode ser criativo, mas nunca será arte".
Em nossos dias, muitas pessoas se julgam artistas conceitualistas. Já não existe mais a preocupação nem com o desenho que é o fundamento de qualquer obra de arte. Na verdade muitos nem siquer sabem desenhar. Basta um giro pelas galerias de arte para constatar uma enorme quatidade de lixo que está à venda.
O artigo de Bardi nos dá uma lição sobre este assunto.
"UM SOCO PODE SER CRIATIVO, MAS NUNCA SERÁ ARTE"
"Hoje ou amanhã um fulano qualquer resolve ser artista, mas não quer perder tempo numa escola mesmo que seja até uma daquelas onde o bate-papo substitui o ensino-já-era. Dá-se um soco na cabeça e inventa-se um jeito de comunicação, possivelmente original, puxando para o inédito. (Às vezes descobre até mesmo o guarda-chuva, mas como nem todos conhecem este instrumento, tem quem bata palmas.) Visto que a pintura, a escultura, a própria arquitetura tiveram e têm soluções plásticas ao infinito, o fulano veleja geralmente no lago de recente formação dita CONCEITUALISMO, uma nova torneira dos que pretendem mudar o caminho do assim chamado Rio das Artes.
O Conceitualismo, na Filosofia, é assunto claro: os universais não existem por si mesmo, sendo construções do espírito, daí saindo a proposta de operar individualmente - infantil ou catedraticamente - seja qual for a farinha do próprio saco. Admitida a doutrina do solipsismo - a única realidade é o EU -, temos como conseqüência que qualquer ato do aindivíduo é batuta, naturalmente batuta pelo EU; resta verificar se os outros acham graça, ou consideram o fulano ingênuo ou chutador.
A dever julgar entre uma natureza morta pintada saída fresca de um portão que dá na praça da Estação da Luz, e quatro pedras colocadas no assoalho de uma galeria na rua Oscar Freire, tocando uma musiquinha de pífaros tibetanos, a opção é para o conceitualista e não para o bisneto de Pedro Alexandrino.
É bom anotar que o Academismo não capítulou. Quando uma crise perturba aquele jardim, a reação é melífua, e brotam tendências apropriadas às circunstâncias sociais ou políticas. O leitor lembra o caso do Hiper-realismo, próspero nos Estado Unidos desde os tempos de Roosevelt, quase um contágio do Realismo oleográfico de agrado a Stálin e Hitlher: na Rússia e na Alemanha se exaltava uma ideologia imperialista, o yankees vitalizaram uma ideologia democrática. Numa e outra oficina pictórica a batedeira misturava os resíduos do Realismo.
A situação, então, é de luta entre facções cujas bandeiras são o Realismo e o Abstracionismo.
Voltando ao fulano que se manifesta depositando pedras no chão, é natural que depois do processo "gosto/não gosto", procuraríamos entrar na imaginação do propronente. Não é simples interpretar as conceituações dos laboriosos, como não é fácil descobrir os mistifórios dos alquimistas. A solução é "saber ver". Antigamente nos esinavam a exercer esta averiguação: o Belo de uma pintura era composto de desenho + cor + composição; juntava-se: moralidade + originalidade temática, e uma porção de várias e miúdas particularidades, todas adendos para somar e emitir uma opinião.
Tratava-se de vivisseccionar a peça comparando-a com os famosos exemplos da tradição, pesando os adjetivos na balancinha do farmacêutico, e ajustando notas de louvor ou deméritos. Numa palavra: tínhamos os elementos para julgar.
E agora que o fulano escreve numa tela pentogramas com uma linha a mais ou a menos, e dá a elas uma importância de mensagem?
O sistema dos tempos passados perdurava: um ato institucional da Crítica Abalizada ameaçou e continua ameaçando o legislativo: o Conceitualismo não é "cosa-nostra", mas coisa-EU, egocêntrica.
Como se comportar frente ao fulano que fabrica duas caixas de acrílico, vai a Petrópolis, encaixota o ar de lá, fecha-o hermeticamente, deixa uma caixa na cidade de dom Pedro e outra leva para os cariocas verem? Meu eminente colega Roberto Pontual comentou o fato numa conferência no MASP. A assistência escutou surpresa e compungida. Ninguém comentou, sinal de que ninguém estava preparado para enfrentar o problema.
Os moventes do fulano se originam do casualismo: achada por acaso ou por intensa reflexão, uma idéia singular veste-se de forma ou de expressão - gerando perplexidade e acanhamento.
Recentemente no Museu de Arte de São Paulo deu-se um caso curioso, no apresto da exposição "Cor como Linguagem". Entre os 56 pintores que o Museum of Art recrutou para brasileiros verem , estava um tal de Sol Lewitt, cuja produção "Straight red line from the midpoint of the leftside ou the wall, of any lengh, 1974 ("Linha vermelha e reta do ponto médio da esquerda da parede, de qualquer tamanho, 1974") não se encontrava nos caixotes. Não foi perdido durante o vôo; a funcionária do MOMA, acompanhante do certame nova-iorquino, explicou que ela era portadora da obra. O fulano tinha-lhe confiado um lápis de cera, ciumentamente acondicionado num estojo de vidro forrado de pele de veado recém-nascido, com a incumbência de, minutos antes da inauguração, traçar uma linha vermelha de 165 centímetros na parede, tarefa cuprida religiosamente pela senhora Elizabeth Tal.
Quando vi a execução da operação cenceitualista pensei na definição que Aristóteles dá ao Cômico: "alguma coisa de errado e de feio que não provoca nem dor nem dano", o não razoável, o imprevisto, a provocação do risível pelo absurdo que não alegra a inteligência.
Que fazer?
Vamos continuar o registro das propostas certos de que o absurdo de condenar crenças e feitos incomodantes ao sistema é parte deste Planeta florido de contradições.
O Planeta pode ser agradável justamente por isso."
Pietro Maria Bardi escreveu este artigo em Agosto de 1975.
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A arte é linguagem universal das imagens.
O desenho é a fundação de todas as artes.
Nicéas Romeo Zanchett












